guarulhos..vila galvão

Passeio de domingo - Vila Galvão
Roque Vasto



História publicada em 07/02/2007, no site São Paulo,Nossa Cidade

Gosto de passear pela cidade aos domingos, revendo lugares onde não vou há tempos. Lembrei-me de um lugar na zona norte onde fui muitas vezes quando menino. Esse lugar chamava-se Vila Galvão, e eu só o descobri porque a mãe de um colega tinha uma irmã que morava lá, e em uma das vezes que foi visitá-la levou junto o filho (O Rato) e seus dois colegas: o Ermelindo e eu.

A condução saía da Cantareira, sim, da estação Cantareira, onde uma maria fumaça ia pelo meio das ruas do carandirú, soltando fagulhas e apitando para avisar os pedestres e veículos, e assim, ia se afastando cada vez mais da cidade, até trilhar pela sua própria linha. Nada havia nas margens da ferrovia. Uma casinha aqui, outra mais adiante, até que se chegava na estação Vila Galvão. Era uma festa.



A casa onde íamos ficava perto de onde estava sendo construída uma estrada de rodagem, e as máquinas de terraplanagem cortavam os morros e deixavam enormes barrancos de terra vermelhinha. Não dava outra! Íamos rolar por esses barrancos, engolindo terra até ficarmos vermelhos de tanta poeira, e todo grudado de terra. A bronca era enorme, mas o prazer de rolar naquela terra fresquinha, fazer guerra de peloter de terra molhada, era inigualável.

Na volta para casa, quase sempre lá pelas 19 horas, dormíamos no trem, sob os olhares assustados dos passageiros, pois a roupa voltava imunda.

Não reconheci a Vila Galvão, nem mesmo sei onde era a antiga estação, mas a rodovia que estavam construindo era a Fernão Dias.



Escrito por Touché às 00h15
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felicidade

O ENCONTRO DOS PERSONAGENS
( TRECHO)



Felicidade?
Disse o mais tolo: "Felicidade não existe."
O intelectual: "Não no sentido lato."
O empresário: "Desde que haja lucro."
O operário: "Sem emprego, nem pensar!"
O cientista: "Ainda será descoberta."
O místico: "Está escrito nas estrelas."
O político: "Poder"
A igreja: "Sem tristeza? Impossível.... (Amém)"
O poeta riu de todos,
E por alguns minutos...
Foi feliz!

(Declamação da letra do Teatro mágico: Felicidade)

DA PEÇA TEATRAL " O ENCONTRO DOS PERSONAGENS"
UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE
CENTRO DE ENSINO SUPERIOR DO SERIDÓ
DEPARTAMENTO DE CIÊNCIAS SOCIAIS E HUMANAS
PROGRAMA DE INSTITUCIONAL DE BOLSA DE INICIAÇÃO À DOCÊNCIA
SUBPROJETO LETRAS/LÍNGUA PORTUGUESA
AÇÃO: REVISITANDO OS GÊNEROS NARRATIVOS A PARTIR DE PRÁTICAS TEATRAIS

*
O saudoso poeta Mário Quintana  também nos deixou uma frase muito delicada sobre a felicidade : " O segredo é não correr atrás das borboletas... É cuidar do jardim para que elas venham até você "

Também é de Quintana, essa quadra bem humorada sobre o tema:


DA FELICIDADE
Mario Quintana

Quantas vezes a gente, em busca da ventura,
Procede tal e qual o avozinho infeliz:
Em vão, por toda parte, os óculos procura
Tendo-os na ponta do nariz!

Espelho mágico. Ed. Globo. 2005.

Ilustração: "Sorriso" de Elias Prado e "Pescando com o vovô", Mark Keathly



Escrito por Touché às 23h56
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felicidade clandestina

Felicidade clandestina
Clarice Lispector



Ela era gorda, baixa, sardenta e de cabelos excessivamente crespos, meio arruivados. Tinha um busto enorme, enquanto nós todas ainda éramos achatadas. Como se não bastasse, enchia os dois bolsos da blusa, por cima do busto, com balas. Mas possuía o que qualquer criança devoradora de histórias gostaria de ter: um pai dono de livraria.

Pouco aproveitava. E nós menos ainda: até para aniversário, em vez de pelo menos um livrinho barato, ela nos entregava em mãos um cartão-postal da loja do pai. Ainda por cima era de paisagem do Recife mesmo, onde morávamos, com suas pontes mais do que vistas. Atrás escrevia com letra bordadíssima palavras como "data natalícia" e "saudade".

Mas que talento tinha para a crueldade. Ela toda era pura vingança, chupando balas com barulho. Como essa menina devia nos odiar, nós que éramos imperdoavelmente bonitinhas, esguias, altinhas, de cabelos livres. Comigo exerceu com calma ferocidade o seu sadismo. Na minha ânsia de ler, eu nem notava as humilhações a que ela me submetia: continuava a implorar-lhe emprestados os livros que ela não lia.

Até que veio para ela o magno dia de começar a exercer sobre mim uma tortura chinesa. Como casualmente, informou-me que possuía As Reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato. Era um livro grosso, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o. E completamente acima de minhas posses. Disse-me que eu passasse pela sua casa no dia seguinte e que ela o emprestaria.

Até o dia seguinte eu me transformei na própria esperança da alegria: eu nao vivia, eu nadava devagar num mar suave, as ondas me levavam e me traziam. No dia seguinte fui à sua casa, literalmente correndo. Ela não morava num sobrado como eu, e sim numa casa. Não me mandou entrar. Olhando bem para meus olhos, disse-me que havia emprestado o livro a outra menina, e que eu voltasse no dia seguinte para buscá-lo.

Boquiaberta, saí devagar, mas em breve a esperança de novo me tomava toda e eu recomeçava na rua a andar pulando, que era o meu modo estranho de andar pelas ruas de Recife. Dessa vez nem caí: guiava-me a promessa do livro, o dia seguinte viria, os dias seguintes seriam mais tarde a minha vida inteira, o amor pelo mundo me esperava, andei pulando pelas ruas como sempre e não caí nenhuma vez. Mas não ficou simplesmente nisso. O plano secreto da filha do dono de livraria era tranqüilo e diabólico.

No dia seguinte lá estava eu à porta de sua casa, com um sorriso e o coração batendo. Para ouvir a resposta calma: o livro ainda não estava em seu poder, que eu voltasse no dia seguinte. Mal sabia eu como mais tarde, no decorrer da vida, o drama do "dia seguinte"com ela ia se repetir com meu coração batendo. E assim continuou. Quanto tempo? Não sei.

Ela sabia que era tempo indefinido, enquanto o fel não escorresse todo de seu corpo grosso. Eu já começara a adivinhar que ela me escolhera para eu sofrer, às vezes adivinho. Mas, adivinhando mesmo, às vezes aceito: como se quem quer me fazer sofrer esteja precisando danadamente que eu sofra.

Quanto tempo? Eu ia diariamente à sua casa, sem faltar um dia sequer. As vezes ela dizia: pois o livro esteve comigo ontem de tarde, mas você só veio de manhã, de modo que o emprestei a outra menina. E eu, que não era dada a olheiras, sentia as olheiras se cavando sob os meus olhos espantados.

Até que um dia, quando eu estava à porta de sua casa, ouvindo humilde e silenciosa a sua recusa, apareceu sua mãe. Ela devia estar estranhando a aparição muda e diária daquela menina à porta de sua casa. Pediu explicações a nós duas. Houve uma confusão silenciosa, entrecortada de palavras pouco elucidativas. A senhora achava cada vez mais estranho o fato de não estar entendendo.

Até que essa mãe boa entendeu. Voltou-se para a filha e com enorme surpresa exclamou: mas este livro nunca saiu daqui de casa e você nem quis ler! E o pior para essa mulher não era a descoberta do que acontecia. Devia ser a descoberta horrorizada da filha que tinha. Ela nos espiava em silêncio: a potência de perversidade de sua filha desconhecida e a menina loura em pé à porta, exausta, ao vento das ruas de Recife. Foi então que, finalmente se refazendo, disse firme e calma para a filha: você vai emprestar o livro agora mesmo. E para mim: "E você fica com o livro por quanto tempo quiser." Entendem? Valia mais do que me dar o livro: "pelo tempo que eu quisesse" é tudo o que uma pessoa, grande ou pequena, pode ter a ousadia de querer.

Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mão. Acho que eu não disse nada. Peguei o livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito. Quanto tempo levei até chegar em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração pensativo.

Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes.

Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre iria ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar... Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada. As vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo. Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.



Escrito por Touché às 00h34
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Tema: Felicidade

NOTAS



1 -  "Alguns causam felicidade em todo lugar que vão, outros em toda hora que partem."  Oscar Wilde

2 -  Oscar Fingal O'Flahertie Wills Wilde, ou simplesmente Oscar Wilde (Dublin, Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda, atual República da Irlanda, 16 de outubro de 1854 — Paris, França, 30 de novembro de 1900) foi um influente escritor, poeta e dramaturgo britânico de origem irlandesa.

3 -  Depois de escrever de diferentes formas ao longo da década de 1880, ele se tornou um dos dramaturgos mais populares de Londres, em 1890. Hoje ele é lembrado por seus epigramas e peças, e as circunstâncias de sua prisão, que foi seguido por sua morte precoce.

4-  Em Maio de 1895, após três julgamentos, foi condenado a dois anos de prisão, com trabalhos forçados, por "cometer atos imorais com diversos rapazes".

5-  Foi o pai de um dos seus supostos amantes, o Marquês de Queensberry, quem  levou Oscar Wilde ao tribunal.

6 - o Marquês de Queensberry era pai do Lorde Alfred Douglas , apelidado de Bosie. No terrível período da prisão, Wilde redigiu uma longa carta a Douglas, que chamou de De Profundis.

7 - Wilde foi um mestre em criar frases, marcadas por ironia, sarcasmo e cinismo

8 - Assim como Wilde, o líder pacifista Mahatma Gandhi (1869-1948) ,  principal personalidade da independência da Índia,
também ficou conhecido por seus pensamentos e sua filosofia.

9 - Gandhi ganhou destaque na luta contra os ingleses por meio de seu projeto de não-violência.

10 - Sobre o nosso tema de hoje, felicidade, Mahatma Gandhi escreveu: 
"Não existe um caminho para a felicidade. A felicidade é o caminho"

Ilustração: "O Sonho da Felicidade", Pierre Paul Proudhon










Escrito por Touché às 21h32
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